segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sobre o ensino de língua portuguesa

Na árdua tarefa de trabalharmos a língua portuguesa na escola, um dos maiores e primeiros obstáculos a serem vencidos é tornar significativas aos alunos, falantes nativos da língua, nossas aulas. Historicamente o ensino de língua portuguesa nas escolas é recente, até meados do século XIX ensinava-se latim. Contudo, ao introduzirem-se as aulas de língua nacional, usou-se a mesma estrutura analítica do latim, e as mesmas técnicas para o ensino.
A nomenclatura adaptou-se à latina, quando essa não tinha paralelo, inventava-se um novo termo, coisa que resultou em uma verdadeira Babel gramatical, somente resolvida com a publicação da NGB, em 1959, válida até hoje.
Durante anos o ensino de língua materna na escola foi de natureza metalinguística. Atividades taxonômicas eram aplicadas em quase todas as aulas, e caso houvesse o erro na classificação dizia-se que o aluno “não aprendeu português”. Essa frase internalizou-se em mais de uma geração e chegamos ao absurdo de, em um país lusófono, dizermos que não sabemos português. A autoestima linguística do brasileiro nunca esteve tão baixa. Não só a línguística, mas também a cultural, pois durante o regime militar houve uma explicita campanha de desvalorização da cultura nacional, nesse sentido poderíamos citar a adjetivação pejorativa de nosso cinema, “pornochanchada”, da qual só nos libertaríamos na década de 1990. É também nessa década que o ensino de língua portuguesa passa por revisão, e vários linguístas, que desde a década de oitenta denunciavam os problemas de sala de aula, como Perini, Possenti e Ilari, se popularizam.
A significância de um conteúdo relaciona-se diretamente com sua aplicabilidade na vida diária e, no tocante a isso, a metalinguagem é desprovida de qualquer significado.
O ensino de língua portuguesa deverá então, prever o uso dos saberes em situações reais, por isso não devemos culpar os alunos por nos perguntarem para que serve uma classificação sintática, muito menos dizer-lhes que é importante pois será exigida em concursos, uma vez que a escola não deve formar candidatos a concursos, mas cidadãos.
Acredito que a primeira coisa que o professor de língua portuguesa deve fazer, ao se dispor a repensar sua prática, é perguntar-se: o que eu estou ensinando aos meus alunos os capacitará a uma vivência crítica e autônoma em sociedade? A resposta deve ser sincera, pois dependerá dela o sucesso da educação.
Sucesso a todos nós, e boa semana.

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